Uma questão pessoal, de saúde, me trouxe muito nítida, e novamente, a constatação de que análises rasas são grandes inimigas das soluções. Uma pergunta errada pode atrasar a solução de um problema.
Uma vez um exame de sangue me indicou uma anemia. Eu estava grávida. Isso foi avaliado como normal. Eu fiz suplementação oral de ferro. Não funcionou. Isso também foi considerado normal. Nada foi resolvido.
Na próxima vez em que eu fiz um exame de sangue apareceu a anemia… Mesma coisa. Grávida de novo, nada resolvido.
Na vez seguinte: anemia. Estava mudando de emprego. Sem titubear o médico me passou a suplementação de ferro e dessa vez ia funcionar porque não tinha nenhum bebê em formação na jogada.
Mudei de emprego de novo: anemia. Mas olha, isso aí não é nada não, é só você comer fígado.
Finalmente, depois de doze anos, um médico descobriu o que eu tinha.
O senso comum e as simplificações atrapalharam. Normalmente quando alguém tem baixa contagem de hemácias, AUTOMATICAMENTE se conclui que, como carência de ferro é a mais comum entre as possíveis causas, esse individuo deve aumentar a presença de ferro no seu organismo. A alimentação é estimulada primeiro, a suplementação em seguida, ou ambas.
Como eu sou vegetariana há alguns anos, dois médicos nem pensaram duas vezes antes de me dizer que o problema era não comer carne e que a solução da minha anemia era deixar de ser vegetariana (afinal isso é uma bobagem, disse um deles). Quando introduzimos a informação “vegetariana”, o clínico geral rapidamente trava no diagnóstico “falta ferro” e introduz a solução “coma carne e fígado”.
Quando eu respondia que o problema vinha de outras épocas em que eu não era vegetariana, essa informação era ignorada e eu saia frustrada e anêmica do consultório.
Precisei de um hematologista para quebrar esse ciclo, começando pela investigação das possíveis causas. Alguns exames depois encontramos. Estávamos diante de uma vegetariana com ferro, ferritina e absorção de ferro EXCELENTES, mas carente de vitamina B12. A vitamina B12 está presente em vegetais verdes que consumo com ferquência, então estamos investigando porque o organismo não está absorvendo a B12.
Longa história com algumas lições:
i) PERGUNTA ERRADA -Todos os médicos tentaram responder a pergunta “Por que ela está com ferro baixo?” quando deveriam ter perguntado “Por que a contagem de hemácias está baixa – Como perguntaram sobre o ferro, quando estava grávida o bebê era o culpado, quando não, devia ser porque eu era vegetariana
ii) HISTÓRICO – No Brasil não temos um histórico unificado de saúde para que cada médico pudesse acompanhar as anemias passadas. Muitas vezes nos deparamos com situações assim não documentadas no mundo das marcas. Mas se tivessem ouvido com atenção e acreditado nos meus relatos, talvez tivessem parado e feito a pergunta certa. Por isso sempre eu fico horas ouvindo todas as histórias que me contam do que já foi tentado antes nos projetos porque mesmo que eu tenha que tentar de novo, algumas vezes acelera o processo.
iii) PRECONCEITOS – Quem já não ouviu o famoso *nossa, que papinho nova economia.* ou *Ah, isso aí não funciona*. Mesma coisa. O fato de eu ser vegetariana me colocou injustamente na categoria “deficiente em ferro* e este não foi investigado por nenhum dos três médicos da fase pós-vegetarianismo.
iv) ACOMPANHAMENTO – Aí falha 100% minha. Como depois das suplementações que não funcionaram eu não voltava lá para ver se o plano tinha funcionado, o problema continuava. Quantos planos já não vimos implementados que nunca foram monitorados?
Moral da história: Problema investigado superficialmente costuma gerar perguntas erradas ou incompletas. Perguntas erradas costumam gerar planos que não resolverão o problema. Se esses são implementados e não monitorados os ciclos podem continuar por anos. Anos.
Esse é apenas um dos muitos casos que eu já vivi onde o diagnóstico foi feito na ausência de todos os dados. Provar hipóteses é trabalho árduo. Não estou advogando a imobilidade até se achar a resposta certa, mas olhar com disciplina para os problemas ajuda MUITO. E checar se o remédio receitado está funcionando ajuda AINDA MAIS.
Aqui na Brandgame nós acreditamos e praticamos identificar o problema certo através da nossa metodologia do FRAME. Sempre. Porque de que adianta perguntar de onde vem a deficiência de ferro se o que está faltando é a vitamina B12?
Pense nisso…
Um Comentário
Concordo com você…
O que me parece que acontece de verdade é que deixamos de pensar fora da caixa, para seguir o “script” a lógica da “causalidade simples e padronizada”.
E é isso que acaba com a oportunidade de abraçarmos novas oportunidades.